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Ciclos de Mudança: O que acontece com o corpo ao parar a hormonização?

No meu consultório e nas conversas que acompanho, percebo que a jornada da transição de gênero é composta por muitas fases, e uma delas — que nem sempre recebe a atenção necessária — é o momento em que se decide, por motivos diversos, pausar ou interromper o uso de hormônios.

Parar a hormonização não torna ninguém "menos trans". A identidade de gênero é autodeterminada e não depende de modificações corporais para ser legítima. Às vezes, a interrupção acontece por questões de saúde, desejo de engravidar, razões financeiras ou simplesmente porque a pessoa se sente confortável no estágio em que está. Mas o que, de fato, muda no nosso organismo?


O Retorno das Características Prévias: O que é reversível?

A primeira coisa que precisamos entender é que o corpo humano é incrivelmente adaptável. Quando cessamos a administração externa de hormônios, as gônadas (testículos ou ovários), se ainda estiverem presentes, tendem a retomar a produção dos hormônios biológicos originais.


Para quem fazia a hormonização masculinizante (testosterona), a interrupção costuma trazer o retorno do ciclo menstrual em alguns meses. A redistribuição da gordura corporal e a massa muscular também tendem a voltar ao padrão anterior. No entanto, é vital saber que o engrossamento da voz, o aumento do clitóris e o crescimento de pelos terminais são mudanças consideradas irreversíveis ou apenas parcialmente reversíveis.


Já na hormonização feminilizante (estrogênios e antiandrógenos), parar o uso faz com que a pele volte a ter mais oleosidade e a redistribuição da gordura masculina retorne. A libido e as ereções espontâneas, que costumam diminuir durante o uso, tendem a reaparecer. Contudo, o crescimento do tecido mamário (o "broto" da mama) desenvolvido é permanente.



Saúde e Equilíbrio: O Cuidado Além da Aparência

Além do espelho, a interrupção da hormonização exige um olhar atento para a saúde interna. Os hormônios sexuais desempenham papéis cruciais na nossa densidade óssea e na saúde cardiovascular.

Um ponto de atenção especial é para quem passou por cirurgias de retirada das gônadas (orquiectomia ou ooforectomia). Nesses casos, o corpo deixa de produzir hormônios sexuais em níveis funcionais. Ficar sem nenhum hormônio (nem o exógeno, nem o natural) aumenta significativamente o risco de osteoporose precoce e de complicações metabólicas. Por isso, nesses contextos, a manutenção de uma reposição hormonal é, muitas vezes, uma questão de saúde geral, e não apenas de transição.

O mais importante é que esse processo seja feito com diálogo. Se você está pensando em parar ou precisa pausar seu uso por algum motivo, não faça isso no escuro. O monitoramento clínico ajuda a manejar as mudanças de humor e a garantir que seu corpo continue saudável nessa nova fase. A transição é sua, o tempo é seu, e o meu papel — e de toda a equipe de saúde — é garantir que você caminhe com segurança e dignidade.


Espero que este texto tenha trazido clareza para você.

Se desejar conversar comigo a respeito dessa decisão, entre em contato e agende uma consulta!



Referências Bibliográficas:

CIASCA, S. V.; HERCOWITZ, A.; LOPES JUNIOR, A. (Eds.). Saúde LGBTQIA+: Práticas de Cuidado Transdisciplinar. 1. ed. Santana de Parnaíba, SP: Manole, 2021.

WORLD PROFESSIONAL ASSOCIATION FOR TRANSGENDER HEALTH (WPATH). Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8. 2022.

 

 
 
 

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